
Jarra Abacaxi
Não sou Lula nem Shakespeare, mas estou cada vez mais convencida de que, entre o céu e a terra, há muito mais do que a vã filosofia possa supor. Desta feita, contribui para o meu pensamento uma antiga conhecida: a jarra abacaxi.
Muitos sabem, e há muito, que, desde mais ou menos os três anos de idade, nutro grande paixão e sede por essa maravilha do kitsh. Explico para os esquecidos e distraídos:
Nasci de parteira numa casa de uma cidade muito pequena, em 1964. Sei que, antes dos quatro, já tinha mudado de Castelo – essa é o lugar – pra Cachoeiro do Itapemirim, porque me lembro com muita nitidez do dia em que completei quatro anos: minha irmã Bete me fez um pavê cheio de bolinhas coloridas por cima que me fez muito feliz. Foi a única festa de aniversário que tive na infância.
Pois bem, quando morava em Castelo, de vez em quando, íamos, mamãe e eu, visitar dona Osília Ragazzi, que, parece, foi minha parteira. Era uma mulher que chamava muito a minha atenção por três motivos. Primeiro, ela tinha no queixo uma barba bem cerrada, que raspava com Gilette e que, do meu ângulo de observação, aparecia sempre, toda espetante em pontinhos negros. Segundo, porque na copa da casa dela havia um armário em cuja prateleira mais alta ela guardava coloridos vidros com compotas de variadas frutas. Era um colorido excitante do meu desejo de coisas melhores do que as que havia lá em casa. Pêssegos, rodelas de abacaxi, goiabas, peras... Nossa, que coisa linda! E terceiro, mas não em ordem de preferência, ela possuía uma jarra abacaxi!
Lá em casa, nem geladeira tinha naqueles idos. Mas dona Osília não: dona Osília, no canto da copa, ao lado do armário das compotas, tinha uma geladeira, e, dentro dela, na primeira prateleira, magnânima, sugestiva, reinava, aos meus olhos, uma jarra abacaxi. Linda, amarela alaranjada, com aquela coroa verde exuberante como tampa! Não havia ocasião em que eu não pedisse um copo d’água, na maior parte das vezes sem sede alguma, só pra poder olhar um pouquinho para a jarra abacaxi, além, claro, de beber aquela iguaria: água gelada!
Quarenta e quatro anos se passaram.
No último dia 30, sábado, meu aniversário, Georgina não resistiu e me disse o presente que me chegaria – até a quarta-feira próxima -, e era ele nada menos do que uma jarra abacaxi. Saí pulando de alegria! Agora, na minha geladeira frost free, também reinaria a cobiçada jarra abacaxi!
Veio o domingo e veio a segunda. Quarta à noite, ao chegar do trabalho, pensei nela. Talvez tivesse chegado e sido guardada pelo zelador, o qual eu também não veria no dia seguinte. E minha jarra lá, solitária num canto... Só sexta eu a veria. Paciência! Pra quem esperou quatro décadas, o que são dois dias?
Quinta-feira saí cedo pro trabalho. Lá pelas dez e meia, me encontrei com minha equipe. Elas me deram um presente coletivo: um perfume lindo! Cheira daqui, agradece dali, beija dacolá, e então, eis que acontece o seguinte: Teresa vira e diz que tinha pra mim um presente pessoal, devido havia uns cinco anos. Ai, meu Deus!, - pensei eu, ao ver a forma do pacote. E era também uma jarra abacaxi não virtual! Ali estava ela, de verdade, amarelinha com a coroa verde, concretude de frescor nas minhas mãos! Mais uma vez, pulei que nem uma cabrita pela sala, esquecendo do perfume e enchendo de beijos a amiga! Nem tive coragem de falar da outra! E saí pela escola mostrando a todos o meu adorado presente!
Passou o dia. De noite, já em casa, a primeira coisa que fiz foi encher de água minha jarra. MINHA jarra abacaxi!
Dali a pouco, passando das oito da noite, tocou o interfone. Atendi. A voz, lá de baixo, falava que tinha uma encomenda para a dona Georgina Martins. Ai, meu Deus! Era ela, a outra, a primeira! Subiu. Igualzinha! Nossa!
Achei que significava algo. Resolvi ligar pra minha irmã imediatamente. “Sunta, você não vai acreditar!” E contei pra ela toda a história. Quando acabei, ela virou e falou que a minha sobrinha Mariana também tinha encomendado pra mim nada menos que... uma jarra abacaxi!
Meu Deus, meus deuses, como é que pode?! No mesmo dia, de zero jarra eu passo a ter três – vejam bem, TRÊS - delas! A tese, a antítese e a síntese! As três pessoas da trindade santíssima! O triângulo, “a perfeição divina na grande síntese” do mesmo objeto! Desde então, a jarra vem fazendo um sucesso enorme aqui em casa!
Fiquei com isso em mim. E lhes ofereço, como um copo d’água gelada.